A Casa

por Margarida Vale *

Subiu a escada a medo. Aquele ainda era um local que lhe dava calafrios. A casa era da família mas sentiu-se sempre uma intrusa e não sabia explicar o porquê. Eram pequenos gestos, coisinhas que, aparentemente , não tinham importância mas que a tocavam. Não era dali, estava emprestada. Os degraus soavam, debaixo dos seus pés, a cada movimento efectuado. Ela ia recordando tudo, como se ainda estivesse a acontecer. Parou. O som que ouvia era o seu coração a bater descompassadamente. Mas porquê tudo aquilo? Já tinha passado tanto tempo! Abriu a porta. O quarto estava igual, conforme o tinha deixado. Em cima da cama estava a boneca, onde guardava o pijama e na mesa de estudo o globo desafiava-a. Ainda não sabes as capitais? Olha que eu brilho!

Entrou e sentou-se na cama. A porta do armário estava fechada. Ainda bem. Não sabia se tinha coragem de a voltar a abrir. Os esqueletos continuavam lá, guardados naquele canto secreto que ela tinha inventado. Calados, imóveis, invisíveis e nulos. Abriu a gaveta da mesa de cabeceira. Ali estava o diário. Era o seu muro de lamentações, o confidente e o conselheiro. O cadeado estava arrombado mas ela já calculava. O irmão nunca a tinha respeitado e agora, sozinho naquele casarão, era o dono de tudo. Sentiu vontade de chorar mas já não era aquela menina angustiada dos tempos que tinha passado ali. Agora era adulta mas o cheio das recordações ainda lhe doía na alma. Abriu-o numa página marcada. " Hoje senti que o mundo estava contra mim. " Parou e fechou os olhos. Aquele dia apareceu-lhe, de repente, cheio de memórias que persistiam em ficar e atormentá-la.

Estava zangada com a vida desde os 15 anos, mas sobreviveu sozinha. Ninguém, numa casa enorme, cheia de gente, se apercebeu dos seu infortúnio. Ela continuava a ficar para o fim, era a última situação e não uma prioridade. " Ela é muito independente. " Não, não era. Era muito infeliz e ninguém percebia isso. Aprendeu a fazer tudo porque sabia que só podia contar consigo. Não pedia ajuda porque não tinha a quem, não chorava porque as lágrimas já estavam gastas. E apaixonou-se. Parva! Dizia mal da sua vida todos os dias! Ele era deslumbrante e deu-lhe a volta à cabeça. Dominou-a totalmente. Não lhe resistia. Mas foi embora no dia em que lhe disse o que ele não queria ouvir. Fechou-se e abriu o seu diário, cheio de códigos e enigmas que a ajudaram. O mundo não estava contra ela, o mundo dela é que não se encaixava na noção de aquilo que ela queria.

Ouviu um barulho. Virou a cabeça. Soltou um ui, baixinho. Era o irmão. Por momentos mediram-se com o olhar e não falaram. Não tinham nada que os unisse e aquela casa era um suplício para ambos. Para ele, porque a tinha herdado. e para ela porque lhe lembrava tempos que ela queria esquecer. " Como estás? " e beijou-a na face. Ela respondeu delicadamente. " O advogado deve estar a chegar. É melhor ir para baixo. " Ela ainda olhou para o quarto mais uma vez. Não queria nada daquilo. Talvez o tempo, se pudesse andar para trás. Não podia. De repente lembrou-se daquela manhã que tinha assistido ao nascimento dos gatinhos. Estava tão feliz e tão maravilhada que não se calava com o assunto. Não lhe disseram nada, simplesmente viraram-lhe as costas. Não percebeu. Gatinhos, que coisinha linda! Nascer não era importante para aquela família. Ela sabia isso muito bem, nunca o iria esquecer. Da inocência passou à tristeza. Não desistiu, como podia?

Tocaram à campainha. Era o grupo de advogados que vinha ler o testamento. Todos bem postos e impessoais. Dir-se-ia que eram gémeos, tal era a semelhança. As idades talvez não o fossem mas a postura não os diferenciava nem um pouco. Ela olhou para eles com olhar de inquietação. Algo lhe fez saltar o coração. Era o momento negativo, aquele que ela sabia que haveria de acontecer mas que gostaria de retardar. Sentaram-se todos. Um dos advogados olhava para ela e em tom  grave pronunciou: " Vai ser feita a abertura do testamento." Ela suspirou. Baixou os olhos e resignou-se. Não ouviu nada do que leram e estava num mundo seu quando uma voz a despertou. Era o mais novo dos advogados. " Olá mãe! ".

A autora publica também na plataforma Capazes e no seu mural de Facebook.