Entre Paredes

por DF

Morava sozinho.

Teriam passado dez anos desde que prometera à mãe de tudo fazer para ir morrer longe. Nesse dia, os muros que os separavam foram destruídos pelo arremesso de pratos a transbordar de um estrugido infernal que Pedro comera, vezes sem conta, a contragosto.

Desde que se mudara para aquela casa-quarto de três paredes e uma janela, nunca mais comeu do que não quis. Saía da liberdade conquistada para trabalhar, ir ao ginásio e comprar o que precisava para fazer o estrugido. Ocupava as horas vagas com aquele estranho ritual: distribuía doses generosas por pratos baratos, lançava-os contra as paredes e demorava-se observar os cacos no chão e o molho que lentamente escorria até eles. No fim limpava o que fizera, qual criminoso a livrar-se das provas, cuidava das paredes até estarem prontas para outra sessão de loucura. Deitava-se com fome e prometia-se que o dia seguinte seria diferente.

Profissional competente, amigo extremoso, cidadão empenhado, sabia de cor os papéis que representava e que julgava necessários. Aprendera a acreditar no que fingia, o que um dia fora máscara era agora pele; carregava os secretos rituais como uma inevitabilidade e não como infeliz sina. Sabia-se senhor da sua história e ainda que admitisse mão divina, não esperava que viesse ao seu encontro, afinal havia fome e guerra, ele era só particularmente triste.

A autonomia viera com um preço que ele também antecipara, tinha-se a si, ao estrugido, ao trabalho, ao dinheiro que recebia e empregava até ao último cêntimo na compra de ingredientes. Era conhecido em todos supermercados da cidade, tantas as vezes que precisara de mais tomate e cebola e litros de azeite. Chegado a casa, não tinha de esconder os sacos nem de ter medo de que o ruído do plástico o denunciasse no silêncio da noite. Era só ele. 

Por vezes quando regressava das idas furtivas aos supermercados, lembrava-se do que gritara à mãe. Depois contava os anos que oferecera àquele degredo; eram quase tantos quantos os que passara a querer morrer longe antes de ser capaz de o dizer. “Eu escolhi”, afirmação predilecta, “eu sou responsável”, “eu sou o principio e o fim dos acontecimentos da minha vida”, mas a vida parecia rir-se de si e das suas convicções com a simplicidade da evidência que podendo terminar com a vida, não era capaz de o fazer. Numa mão, a possibilidade de executar; na outra, o medo de sobreviver. 

E naquele impasse, na revolta bipolar de amar as suas circunstâncias mas odiar a vida em si, atirava os pratos contra a parede, repletos do estrugido que não voltara a comer, tivesse ou não fome. 

Cheias da loucura a que assistiam, as paredes aumentavam de espessura. E Pedro, cheio de vergonha do que lá acontecia, inchava a olhos vistos. Eventualmente a casa apertada deixou de servir para mais que um e a solidão, já gorda, agigantou-se. 

Numa manhã de folga em que trocou o ginásio pelos secretos rituais, os metros quadrados de assoalhada estreitaram de tal maneira que percebeu que se saísse, não voltaria a entrar. Fez então a única escolha que lhe pareceu possível - talvez por isso não se tratasse verdadeiramente de uma escolha - e lá permaneceu.

Na casa já não cabia a loucura. Era só ele e as paredes e o desconforto de esperar que acabasse. 

Mas Pedro sempre tivera pressa, primeiro de morrer longe, depois de se recolher para se entregar ao lançamento dos pratos. Por isso, inconformado com a existência feita de corpo e horizonte casca-de-ovo, abriu a janela e saltou.