Jogo de Matraquilhos

por Margarida Vale *

Lembras-te daquela tarde em que fomos ter com o teu grupo de amigo a uma taberna? Achavas que eu ia ficar chocada mas afinal tu é que tiveste a surpresa da tua vida. Nunca me senti diminuída nem desconfortável em ambientes desconhecidos. Estavas a testar os meus limites mas foram os teus que deram a resposta que nunca pensavas encontrar. Era um local escuro, esconso e com um cheiro muito forte. Sim, cheirava a vinho tinto, carrascão, forte e manchado, daquele que deixa marcas nas mesas, nos toalhetes e no corpo. Nunca mais se evapora. Estava cheio daquilo que se chama um cliente habitual, aqueles que já fazem parte daquele local , a sua casa verdadeira. Muitos deles nem abriam os olhos, tal era o estado de embriaguês que tinham, outros olhavam, com olhar parado, pensando no dia anterior ou num outro qualquer. Um verdadeiro templo ao vinho.

A sala de jogos era no fundo do estabelecimento e para lá chegar tinha que se atravessar toda a loja. Era impossível uma rapariga passar despercebida. Eu senti todos aqueles olhares, os que ainda viam alguma coisa, nas minhas costas. Eram quentes e pesados mas não me demoveram nem um pouco. Caminhei segura, sem vacilar e tapei o nariz. De facto o cheiro era pestilento e entranhava-se nos poros. A eles já não fazia efeito. Estavam vacinados.

 

O grupo já estava à espera, a esfregar as mãos de contente, convencidos que iam ganhar com a maior das facilidades. Típico de quem não sabia quem eu era. Todos rapazes, altos, espadaúdos e, claro está, convencidos. Lembro-me bem das suas caras, risonhas e desafiantes a olhar para mim. Eu não tinha nada de convencional para uma rapariga da minha idade e, por isso, acabava por confundir as pessoas. Era uma defesa que desenvolvi e que nunca perdi. Não sei se se sentiram " os maiores de Lisboa e arredores " mas aquele sorriso inicial foi desaparecendo à medida que perceberam que era adversária que não pensavam encontrar. É a vida. Temos pena.

Assim que viram como eu largava a bola, a maneira de a bater na parte metálica, o som que ficava no ouvido, os dentes começaram a ficar tapados e percebi, nitidamente, um esgar de uma certa raiva contida. Naquela altura eu usava o cabelo com um corte particularmente estúpido mas se não exercesse a adolescência na altura certa ia exercer quando? O cabelo tapava-me os olhos mas eu via, claramente, o desapontamento deles. Logo no primeiro jogo ganhei. Ora! É sorte de principiante, ouvi um dizer. Tu abanavas a cabeça porque sabias que não era. Não dizias nada. O que tinhas combinado com eles não sabia, mas os teus desafios eram sempre muito bons para mim. Estava a divertir-me imenso, sobretudo ao ver a tua cara preocupada. Eu estava a portar-me como um dos teus e não como era suposto, não era? Nunca percebi porque é que eu havia de ser parva, preocupar-me com unhas pintadas e tamanhos de saltos. Por aquela altura tudo isso me passava ao lado e ainda bem.

Na segunda partida o tom ficou menos simpático e comecei a ouvir palavras menos simpáticas e segredinhos. Que coisas irritante, os segredinhos! Só demonstra falta de respeito por quem está presente. Se querem falar vão para outro sítio, onde não incomodem os outros. E depois voltei a ganhar a partida. Já não disseram nada. Voluntariei-me para trocar de lugar com eles. Aceitaram. bastou um segundo para dizerem que estavam em desvantagem. Não percebi como. Eu era só uma e eles jogavam comigo a pares. Não sabiam perder e muito menos com uma rapariga. Aquilo estava a dar-me um enorme gozo, confesso, mas tinha sido começado por eles e não por mim.

Tu encolhias-te mas a culpa era tua! Sabias muito bem como eu era craque naquele jogo. Se houvesse um buraco, ali, tinhas entrado lá e não saías nunca mais! E os teus amigos eram tão parvos, tão machistas e tão ridículos! Tão educados à moda antiga que me fazia tanta confusão como é que tinham namoradas. E algumas eram umas queridas!

E depois aconteceu uma situação que parecia impossível. O Banana virou-se para mim e chamou-me puta. Fez-se um silêncio sepulcral. Todos ficaram a olhar para ele e para mim. Um olhar receoso da minha reacção e do que daí pudesse sair. Senti nojo dele! Era o que eu mais gostava mas, naquele momento, mostrou que não merecia a minha atenção. Mostrou-se como era, um ser mal formado e machista. Olhei para ele e não fiz mais nada que pudesse suscitar algo de negativo. Na verdade nem tive tempo para isso. Estás recordado? Pois foi! Tu é que reagiste e de que maneira! Pimba! Um murro nas ventas do teu amigo. Ui! Até me doeu a mim.

Não defendia a violência mas ali, naquele caso, foi tão bem merecido. Ele olhava para mim, como se não estivesse mais ninguém naquele sítio. Os clientes calaram-se e o silêncio ocupou o recinto. Depois ele olhou para ti e saiu a correr. Eu estava com a bola de madeira na mão e fiquei sem saber o que fazer. Tu abraçaste-me e eu, estupidamente, comecei a chorar. Senti-me tão protegida que baixei as minhas defesas. Todas. Chorámos os dois durante tanto tempo! Um choro tão quente e tão doce que nunca mais esqueci e continua guardado na minha memória.

Depois deste-me a mão e atravessámos a taberna em direcção à porta, com todos a olharem e sem palavras audíveis. Bem sei o que pensavam mas não se atreviam a falar. Caminhámos juntos e depois, o resto é... história....

A autora publica também na plataforma Capazes e no seu mural de Facebook.