Pacta sunt servanda

por Madalena Teixeira de Figueiredo *

"Ai, esqueci-me das cenouras!" - pensou, em tom aflito.

Lá tinha de reviver o recente passado no supermercado, e enfrentar a enorme fileira de carros que impacientemente esperavam por um lugar para estacionar no labiríntico parque.

Viver numa aldeia isolada em Trás-os-Montes tinha as suas vantagens, claro está, mas ter uma única superfície comercial num raio de 40 km não era de certo uma delas.

Mesmo assim, recostada no banco do seu Seat azul metálico, não trocava por nada o cheiro a pão acabado de cozer do seu forno de lenha, ou o assobiar da brisa por entre as janelas nas quentes noites de verão, à boleia de um bom policial. E de apetite cheio destes ares do campo, nada como um leve creme de cenoura a acompanhar estes lânguidos serões.

Civilização era preciso. Afinal, onde mais encontraria as suas exóticas sementes e superalimentos, as suas preciosas proteínas vegetais como tofu e tempeh? A verdade é que gostava muito deste seu cantinho de sociedade moderna perdido entre a floresta e o silêncio campestre. Passava a semana toda a anotar no seu bloco de folhas recicladas tudo o que faltava na sua modesta casinha, e era capaz de ficar dez minutos em frente do carrinho das compras, a certificar-se pela terceira vez de que não faltava nada da sua lista. No início, talvez por timidez, era discreta nesta sua espécie de obsessão compulsiva. Já nos dia de hoje, nem lhe passava pela cabeça tal "decoro" social, e era capaz de correr desenfreadamente pelos corredores, como se de uma corrida contra o tempo se tratasse.

Era cansativo? Definitivamente. Era uma actividade lúdica e prazerosa? Tinha dias. Era mesmo necessário? Sem dúvida alguma! Aquele doce, doce momento em que, já de sacos esvaziados e despensa cheia, se sentava qual guerreira em descanso, preguiçosamente estendida na sua poltrona Chesterfield, um presente dos seus pais por completar 27 anos de existência.

O jipe BMW apitava histericamente atrás de si, ao comando de uma figurinha encoberta numa vasta cabeleira artificial e óculos espelhados encadeantes.

"Olha-me esta, deve estar com pressa para chegar ao cabeleireiro porque a raiz já cresceu meio milímetro". 

Era uma rapariga tranquila, com os seus acessos de mau humor como toda a gente, mas a falta de tempo e glicose no sangue começavam a acusar o cansaço de estar naquela infernal espera para encontrar um lugar de estacionamento, o que a tornava mais implicativa.

Meia hora depois, estava de volta ao seu gasto volante, e quase lhe deu uma travadinha quando na telefonia anunciavam as horas.

"Dez para as sete? Como...? Bem, vamos jantar lá para as dez da noite, e se...quero lá saber, nem sei porque me meto nestas confusões, sobra sempre para mim! Fica pronto quando estiver pronto, comem todos às horas que for, senão têm bom remédio e desamparam-me a loja, que os fregueses já são mais que muitos.".

Ao menos não havia filas para sair, e enquanto esperava que o ticket abrisse a cancela electrónica, invejava os ocupantes dos outros carros, descontraidamente a falar e a rir. Pareciam vir da piscina, ainda de cabelos molhados a cheirar a cloro, e aproveitavam decerto para vir jantar ou acabar o dia numa sessão de cinema. Não era este o seu plano de festas para o serão, por isso mais valia seguir e nem divagar mais sobre o assunto.

Por entre o arvoredo, sob o céu azul e rosado, corria a longa estrada que a conduziria a casa. Lembrava-se agora de como começara toda esta brincadeira, que tanto trabalho lhe estava a dar.

Num dos almoços mensais com o seu íntimo grupo de amigas, todas se queixavam de que tinham de se encontrar mais vezes. Eram sempre muito divertidos estes encontros, sem dúvida alguma, mas não chegavam nem para contar um décimo de um décimo do que se passava durante um mês inteiro, e convenhamos: trinta dias de vida de uma senhora nas suas trinta primaveras tem muito que se lhe diga, quanto mais de quatro!

Com este ponto assente, Mariana, advogada de profissão, estabeleceu um acordo entre as partes interessadas. fim-de-semana sim, fim?de?semana não, uma amiga receberia as outras três em sua casa, definiria o menu e executava-o, com uma cláusula de excepção para bebidas que seriam por conta de cada uma (já que a "sede" era mais pesada para umas que outras).

Todas satisfeitas com os termos, aceitaram, e a primeira anfitriã, talvez para servir como exemplo, foi Mariana. De véspera receberam um convite por e-mail, com todas as indicações que precisavam. "Levem por favor uma faca afiada e um avental, não se vão arrepender desta experiência".

- Deve querer fazer-nos em picadinho, é o que é! Então mas ela acha que alguém como eu, que nem sequer consegue estrelar um ovo decentemente, tem um avental e uma faca afiada? Os únicos tachos e panelas de cozinha que tenho são os da minha sobrinha, do Imaginarium, que lá por casa ficaram desde a última vez que tomei conta dela. Vai na volta, ainda os deixou de propósito para ver se eu percebia a dica!

Alice, tão encarnada que estava de riso, quase que foi abordada pelo empregado da esplanada, que pensava que ela se estava a sufocar com o seu pão de linhaça e sementes de abóbora. Vânia era assim, brutalmente honesta e espontânea. Não vedava e quando gostava ou não de algo, não tinha problemas nenhuns em dizê-lo, de preferência alto e bom som.

- Oh amiga, tens a certeza de isso que estás para aí a comer é bom? É que parece mais alpista do que comida de gente! Não queres mesmo um bocadinho deste pão de Deus? Estás tão magrinha que qualquer dia sinto que estou a falar com um fantasma. Ainda me tomam por maluca e me internam no Júlio de Matos, ahhh! - exclamou, mordendo o seu bolo com esmerado afinco.

- Não te preocupes, Vânia, que não passo fome. Devias experimentar este pão, de certeza que ias gostar. Tem nozes e passas no interior, prova!

- Credo, mulher! Sabes que não suporto passas, parecem que já foram mastigadas por velhos! Devias era aproveitar e comer comida de adulto enquanto tens dentes para isso, e deixar-te dessas papas para desdentados! Não vai ser aos oitenta que vais andar a comer entrecosto!

Tantos eram os inofensivos disparates que saiam da boca de Vânia que Alice nem retaliava. No início ainda respondia, por vezes até irritada, pelos comentários das amigas que teimavam em não perceber o seu ponto de vista. Com o passar do tempo, acabou por aceitar que não mudaria os hábitos de ninguém com esta abordagem, e a única coisa que ganhava eram nervos e brancos precoces.

Alice gostava que a sua amiga não fosse tão, enfim, desbocada, mas ao longo do tempo foi-se apercebendo que esta era uma das características que a tornavam tão genuína. Já se tinha habituado aos olhares pouco discretos e risinhos entre dentes dos demais em redor. Ficava irritada com os comentários maliciosos, mas rapidamente deixou de se importar ao aperceber-se de que Vânia não queria saber absolutamente para nada da opinião preconceituosa de "meros desconhecidos sem tema de conversa", como os chamava.

Que libertadora era esta maneira de pensar! Vânia era definitivamente uma lufada de ar fresco na vida de Alice, uma janela que lhe oferecia uma nova perspectiva sobre o mundo.

Já sabia! Para entrada faria umas migas ripadas. Tinha um belíssimo pão de centeio fresco, feito ainda de manhã, que alouraria com dentes de alho e azeite extra virgem. Ia servir num prato de sopa, com uma generosa fatia de pão adornada por um ovo biológico estrelado. A ideia era que a gema, semi-escarlate, se fundisse com aquele molho rico.

Nada tinha a ver com o menu servido em casa de Mariana. Quando chegaram ao seu loft numa das agitadas avenidas de Lisboa, grande foi a surpresa de todas ao encontrarem um enorme balcão repleto de peças de sushi e sashimi. Por trás daquele espectáculo gastronómico e artístico, estava um senhor japonês, vestido a rigor, que concentradamente afiava a sua faca.

- Bem-vindas, minhas queridas. Apresento-vos Akira, o sushiman que irá preparar o nosso jantar. O seu nome em japonês significa "o talentoso", e estou certa de que ficarão espantadas com as suas habilidades. - Mariana, deslumbrante como sempre num justo vestido branco e pumps Loubotin, trazia num pequeno tabuleiro com quatro requintados acepipes. Eram quatro enormes conchas, recheadas em tons alaranjados.

- Para começar, o "chef" recomenda vieiras e suas ovas, marinadas em molho ponzu e cebolinho, que serão caramelizadas em vinho doce.

"Serão?" - pensou Alice.

De imediato, Akira deixou o enorme lombo de salmão que estava a transformar em finas fatias para sashimi, e aproximou-se de Mariana com um pequeno maçarico a gás. Num gesto seco, acendeu as bêbedas vieiras, que logo flamejaram em tons azulados.

Soltaram um "ah" surpreso, e Mariana explicou passo a passo como era suposto proceder.

- Com esta muito breve cozedura, a chama está a evaporar o álcool e a selar levemente as vieiras até ficarem no ponto.

Extintas as pequenas labaredas,  Mariana distribuiu por cada uma um exemplar.

- Bem, agora é a melhor parte. "Bottoms up!" - e num movimento, sugou assertivamente o bivalve, sem que nem uma gota sujasse o seu imaculado outfit. As restantes, entreolhando-se, decidiram seguir os passos da amiga pioneira.

Mariana tinha pinta, sem dúvida alguma. Era verdade que não era adorada por todos, e Alice sabia bem que grandes doses da sua companhia deviam ser acompanhadas por uma paciência redobrada...mas que gostava e sabia bem como dar um espectáculo...se sabia!

- É delicioso, - disse Bianca - acho que nunca tinha provado nada assim! É uma mistura perfeita entre o doce e o salgado, o azedo e o amargo, o crocante do cebolinho. E há mais um sabor que não consigo bem explicar...é diferente, é...

- Umami - disse Alice. - É uma palavra japonesa que representa um dos cinco gostos básicos do ser humano. "Uma" significa delicioso e "mi" gosto.

Sentia-se enrubescer enquanto todos os olhos presentes naquela sala estavam postos nela. Não conseguia habituar-se a ser o centro das atenções, por mais que tentasse. Tinha um truque, porém, que adoptara ao longo do tempo: focar-se num dos ouvintes em concreto. Desta vez escolheu Mariana, cujos olhos azuis brilhavam de satisfação e orgulho na amiga.

- Basicamente, é uma forma de dizer que o prato está delicioso. - rematou Alice.

- Não diria melhor! Palavras de uma chef profissional dizem tudo. - disse Bianca, sempre com o seu rasgado sorriso que fortemente contrastava com a pele morena.

Era um amor, a Bianca. Talvez a rapariga mais doce que conhecera até à data. Viu-a pela primeira vez na faculdade, quando eram colegas de quarto num dormitório em Lisboa, e embora Alice tenha desistido do primeiro ano de Arquitectura para seguir a sua verdadeira vocação, continuaram a manter-se em contacto, e a sua improvável amizade floresceu. 

Todas as semanas falavam uma com a outra, para contar as peripécias que tinham vivido, apaziguando assim um pouco as saudades que tinham uma da outra. Quando Bianca terminou o curso, arranjou logo um estágio num conceituado escritório, e decidiu trocar a sua terra banhada pelo Guadiana pelas calçadas do Tejo. Com Alice a trabalhar num restaurante na Hungria, sob o escrutínio acutilante do chef Alajos, Bianca sentia-se um pouco perdida nesta cidade "onde cabiam cinquenta vezes a minha vila!".

Numa das suas merecidas folgas, Alice aproveitou um voo em promoção e veio passar uns dias a Lisboa, no apartamento de Bianca, na Avenida de Roma. Era pequeno, mas vinha equipado com todas as comodidades necessárias para uma pessoa, ou mesmo um casal viverem confortavelmente. Como o avião aterrou já de noite, Bianca foi buscar Alice ao aeroporto no seu Smart preto, e seguiram directas para um dos restaurantes na berra. Entre umas "copas de vino" e tapas de Machego, Bianca confessou o quão difícil estava a ser a adaptação, que se sentia isolada e perdida por vezes.

- Faz-me falta o apoio emocional que deixei lá em cima, em terras húngaras! - mesmo desanimada, não perdia aquele seu sorriso característico.

- Vou já tratar desse assunto, não é tarde nem é cedo! - Alice, já com a ajuda do Cabernet do jantar, desenterrou o telemóvel da carteira e ligou a Vânia e Mariana, as suas duas grandes confidentes e amigas dos velhos tempos de liceu, em Valpaços.

- Levantem esses rabos preguiçosos do sofá, enfiem-se num vestido e saltos altos e venham aqui ter, sem desculpas! - e desligou a chamada, sem sequer houver as réplicas do outro lado da linha.

- Ups, esqueci-me de lhes dizer onde estamos! - claramente já tinha bebido um ou outro copo a mais - Mando a morada por mensagem.

Não foi para menos o espanto das duas quando, nem meia hora depois, apareceram Mariana e Vânia, irrepreensíveis dos pés à cabeça nos seus outfits, como se já estivessem arranjadas há horas à espera do aval de Alice para saírem de casa.

- Vânia, já vi que chegámos tarde! Aqui as meninas têm-se tratado bem. - provocou Mariana, surripiando descaradamente um croquete de batata do prato de Bianca - Mariana, como está? - apresentou-se, estendendo a mão na direcção de Bianca.

- Muito prazer, sou a Bianca! - disse, visivelmente entusiasmada por conhecer pessoas num local diferente do ambiente formal de escritório.

- O que vem a ser isto, menina Bianca? Esse bronze em pleno mês de Dezembro devia dar direito a multa! És daquelas sortudas, estou a ver, ou então trabalhas num solário! Sou a Vânia, passa para cá esses ossos. - e num apertado abraço, Vânia pregou dois beijos nas saudáveis bochechas de Bianca.

Mariana revirou os olhos, algo que habitualmente fazia perante estas demonstrações de afecto tão berrantes de Vânia. 

Eram totais pólos opostos mas, para grande mistério de Alice (e do resto do mundo), eram unha com carne. Vânia era capaz de escalar o Evereste por Mariana e esta não suportava que alguém, fosse quem fosse, tecesse quaisquer comentários menos favoráveis em relação à amiga.

A verdade era que, embora radicalmente diferentes, nutriam uma pela outra uma amizade que transcendia tudo o que as separava. Mais uma prova de que o amor, na sua verdadeira acepção, não conhece barreiras.

E assim, a partir daquela noite improvisada, nasceu um grupo unido de mulheres corajosas, determinadas e que se apoiavam incondicionalmente, deixando Alice muito mais descansada ao deixar Bianca quando voltou a Budapeste para acabar os seus últimos três meses de estágio.

"Já sei qual vai ser o prato principal!" pensou, triunfante.

Para honrar esta sua amiga muito especial, ia fazer um risotto de beterraba, com um crocante parmesão de nozes e uma salada de aipo com molho cítrico a acompanhar. Saudável, elegante e deslumbrante, tal como Bianca.

A sobremesa, essa já não tinha grande hipótese de escolha, teria de ser inspirada em Mariana. Esta ficaria então para último, não percebendo bem se por fruto de uma decisão consciente ou não (um pouco de ambas desconfiava), e claramente seria a que lhe ia dar mais trabalho.

Mariana era uma mulher extraordinária, mas grandes qualidades acarretam também grandes defeitos, e um deles era a sua insuportável inflexibilidade para com os demais.

No jantar em sua casa, já depois de terem degustado um sem número de fantásticas peças de sushi de autor e sashimi do mais fresco peixe, voltou a surpreender as convivas com uma sobremesa digna de exposição no MUDE.

- Como sobremesa, sugiro a minha mais recente criação: "neve no deserto". - disse uma rapariga na sua jaqueta de chef de patisserie, como gostavam de se apresentar. Devia ter os seus trinta anos, pesados já pelo stress e acumular de noites mal dormidas que esta carreira oferecia.

- Quenelle de gelado de baunilha Bourbon, - continuou - sob um crumble de tâmaras Medjool e avelãs fumadas, acompanhados por uma fina barca de bolacha de tapioca recheada com banana caramelizada. É a minha reinterpretação da tradicional telha de amêndoa com a mundialmente famosa "banana split".

Alice conseguia sentir ao seu lado o iminente ataque de riso que galopantemente se apoderava de Vânia, com toda aquela conversa prepotente e quase a roçar o ridículo, beliscando-a na perna discretamente para a chamar à atenção.

Não a podia censurar. De facto, ela própria queria largar uma gargalhada monumental e perguntar quando saltavam as câmaras a dizerem que isto era para os apanhados. E porquê estas manias de "reinterpretar" pratos que só por si são deliciosos e memoráveis, verdadeiros clássicos que não são nem devem tentar ser suplantados!

Alice nem era especialmente fã de doces, e o açúcar era um dos venenos que evitava ao máximo, mas as regras de etiqueta impediam-na de não provar pelo menos uma garfada de qualquer prato que lhe fosse oferecido. E assim o fez, embora já irritada de antemão com toda aquela descrição possidónia prévia.

Estava bom e bem executado, sem dúvida, e sabia o quão exigente era o prato a nível técnico. Sabia também que, mesmo que quisesse, não aguentaria outra garfada, ou entraria num coma de açúcar. Esta era uma das consequências de seguir um estilo de vida tão puro e "limpinho". A sua tolerância a alimentos processados e transformados era já praticamente inexistente, e bastava um pequeno desvio do seu regime habitual para sofrer as mazelas no dia seguinte. As amigas, mais resistentes neste campo, acabaram todas o prato, embora já não sem dificuldades à excepção de Vânia, cujo prato parecia mesmo já ter sido lavado de tão limpo que estava.

Já por altura dos cafés e chás, Mariana voltou a tomar a palavra.

- Minhas queridas, espero que tenham gostado desta noite, adorei ter-vos aqui a todas, e que este seja o primeiro de muitos. Visto que tínhamos acordado na rotatividade como método principal, sugiro que a próxima feliz candidata seja a Alice. Afinal, quem melhor que uma chef profissional de excelência para tomar as rédeas e inspirar-nos com as suas maravilhosas criações? Eu estou morta por experimentar as novas receitas, tudo o que ela faz é absolutamente delicioso! Há uns que têm o toque de Midas, pois eu acho que a Alice tem o toque Michelin!

Alice corou, outra vez. Sabia que Mariana estava a ser sincera, e que não era pessoa de elogios fáceis. Acreditava mesmo no talento de Alice e era devota fã do seu trabalho. Muitas foram as palavras de incentivo que ao longo dos anos a ajudaram a superar todas as dificuldades e provações, que a tornaram numa competente profissional.

Afinal, como iria terminar o seu menu e homenagear Mariana, sem com isto frustrar quaisquer antecipadas expectativas?

Distraída com os seus pensamentos, quase se esquecia de acender o pisca e virar à direita, de forma a descer a pequena estrada na encosta que culminava no portão de madeira da sua casa. Enquanto apreciava os alaranjados raios de luz que espreitavam por entre as frechas dos ramos de todo aquele arvoredo, teve finalmente um rasgo de inspiração.

"Claro, como não pensei nisto antes? Vou fazer um petit gâteau!"

A razão era simples. À primeira vista, parece pequeno e desenxabido, suspeito de ser algo seco. São daqueles bolos cujo seu lugar parece mais adequado numa mesa de chá duma revista de decoração e não numa vitrine enquanto sério candidato na promoção de um decadente momento de guloso prazer.

Mas já dizia o ditado que "quem" não arrisca, não petisca". No caso em questão, não era um bem um petisco, mas antes um verdadeiro pitéu que escondia, no seu interior, um precioso líquido doce pronto a ser solto e alagar a massa fofa que o enclausurou.

Mas porquê um petit gâteau? Porque, à primeira vista, a maioria das pessoas julgava Mariana como alguém bastante atraente fisicamente e totalmente inacessível, com o seu ar altivo de "princesa de gelo", como já a tinham apelidado. Só quem era realmente audaz para a conhecer melhor ficava agradavelmente surpreendido com a maravilhosa mulher por detrás daquela "carapaça" exterior de frieza. E pelos seus, ela era capaz de mover mundos e fundos para solucionar todos os problemas que os atormentassem, independentemente dos obstáculos que se sobrepusessem no seu caminho: saltava-os a todos com destreza olímpica.

Mas não poderia ser o já démodé petit gâteau de chocolate com gelado de baunilha. Isso e não tinha tempo para fazer o gelado, e nem pensar que serviria um de pacote! Não, faria ela também uma "recriação", e porque não? A base do bolo seria de cacau, para ser mais denso e compacto, amargo o suficiente para contrastar com o recheio de manteiga de amendoim e amêndoa, original e irreverente como a personalidade homenageada. Como elemento frio e quebrar o calor daquele "vulcão" de sabor, serviria um sorbet de pêssego e nectarina. Afinal, era Agosto profundo, e lembrava-se que tinha a fruteira na mesa de jantar cheia destas frutas bem maduras, e não fazia a mínima ideia até então de como ia aproveitar toda aquela produção. Só tinha de cortá-la em cubos e triturar tudo, juntar uma vagem de baunilha fresca que a sua mãe lhe trouxera da viagem a Marrocos naquelas férias e colocar no congelador, que lá pela hora de servir já estaria o preparado sólido.

Chegara ao portão. Conseguia ouvir o ladrar entusiasmado de Orpheu, ao reconhecer o barulho do motor do carro. Estacionou, esvaziou o porta-bagagens e arrumou as compras e finalmente viu-se na cozinha, pronta para preparar um verdadeiro festim para todos os sentidos. Dedicaria a esmagadora maioria do tempo que faltava até as convidadas chegarem com os preparativos, como não só cozinhar, mas também acender velas, dar um jeito na casa, pôr a mesa, escolher uma boa musiquinha de fundo para criar um certo "ambience cool"...mas estava definitivamente mais calma, a cozinha era o melhor antídoto contra a sua  kriptonitica ansiedade.

"- Bem, mãos à obra!". Abriu ao frigorífico e, mesmo antes de fechar a porta, olhou para a gaveta inferior onde guardava os legumes, e deparou-se com esta incrível constatação: não tinha comprado cenouras, mas cheróvias!

Por entre o espanto do ocorrido e a irritação súbita provocado por tamanha distração sua, desmanchou-se num ataque de riso como daqueles que já não se lembrava da última vez que tinha tido. Aqueles em que nos dói (mesmo, literalmente dói) a barriga de tanto rir, melhores para os abdominais do que quaisquer exercícios feitos no ginásio. Aqueles que põem à prova até uma bexiga de ferro.

E finalmente lembrou-se de que não tinha razões para estar tão nervosa e agitada. Afinal, não estava num exame de competências ou prova de degustação! As suas amigas, embora fossem simultaneamente as suas maiores adeptas e críticas, não estavam ali para escrutinar até que ponto tinham um grão de arroz mal cozido no prato, ou se a sopa estava demasiado fria. Tinha de deixar de levar a vida tão a sério, descontrair e aproveitar estes pequenos momentos que a vida nos proporciona. Estava de férias, há quantos anos isso não acontecia, e estava a levar o estilo de vida com que sonhou todos aqueles anos em que viveu fechada em apartamentos minúsculos partilhados com alguns colegas de trabalho.

Fechou a porta do frigorífico, roubou um pêssego da fruteira e olhou pela enorme janela de vidro da sua sala, onde o quente sol se punha sob um mar de nuvens de esbatidas.

"O jantar pode esperar. Temos tempo.".

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