Quatro segundos e meio

por Bruno Costa *

Saulo empurra a porta do terraço. Pesada, ela arranha o silêncio no alto da noite. Caminha até a sacada, não há ninguém por lá. A brisa esfria sua pele por debaixo do terno. Ele retira a aliança do dedo e põe em cima do parapeito. Puxa sua pistola, presa em sua cintura, e a coloca ao lado da aliança. Por fim, alinha também seu distintivo aos demais objetos. Reclina o corpo, observando a vista que tem abaixo de si. Vinte minutos depois, um mendigo dobra a esquina empurrando um carrinho, com cobertores e caixas de papelão. Uma corrente de ar gelada avança sobre a rua, arrastando poeira, envergando galhos de árvores. Faz um puta frio no alto do edifício. Saulo tem a testa reluzente, o suor prestes a formar as primeira gotas que escorrerão por seu rosto pálido. Ele ajeita o nó da gravata e sobe no parapeito. 

Alguns andares abaixo, os convidados já estão, em sua maioria, dançando a não guardar memória para o amanhã. Entre eles, ainda sentada, está Raquel, esposa de Saulo. O corte de seu vestido longo favorece suas pernas cruzadas, reiteradamente observadas pelo homem com quem conversa. É o irmão da noiva e ela acaba de conhecê-lo. Sob música alta, conversam ao pé do ouvido. A mão esquerda de Raquel repousa no braço direito do homem; a mão direita segura uma taça de champanhe. Antes de se levantarem para a pista de dança, ela olha ao redor. Talvez para procurar os filhos que há pouco corriam de um lado para o outro, rindo. Talvez procurando seu marido, a quem não vê faz quase uma hora. 

Perto de uma das mesas, um menino entretém uma menina menor que ele, fazendo malabarismos com bolinhas de guardanapo. São irmãos. Ele olha para a mesa da mãe, quase a cada dez minutos. Mas as duas crianças se divertem com pouco. As bolinhas que caem são apanhadas pela menina, que logo as entrega ao irmão. Olha com atenção, até que decide tentar também, apesar da pouca coordenação. O mais velho ri e ela atira nele as bolinhas. Correndo pelo salão, começam uma batalha. Uma última vez o menino olha em direção à mesa da mãe. Ela não está ali. Volta o olhar, mas já perdeu de vista também a irmãzinha. 

No térreo, dois seguranças conversam enquanto ouvem pelo rádio os comentários sobre uma partida de futebol. Um deles caminha um pouco mais para a calçada e se põe a encarar o mendigo, que cochila sem retirar as mãos do carrinho. Psiu. Oh. Sem sucesso, ele retorna para junto de seu parceiro. Apanham uma garrafa térmica na portaria e se servem do café. De costas para a rua, não veem o corpo de Saulo atingir o chão. Apenas o estrondo lhes chama a atenção. Se aproximam num pique, assim como o mendigo. Um deles liga para a emergência. O outro está parado, com uma das mãos na cabeça. 

O sangue escorre por entre as frestas abertas no cimento. Os calcanhares tortos acusam fratura. Os olhos que por pouco não saltaram da órbita, miram o céu. Faz silêncio na rua.

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