Uma triste coincidĂȘncia

por Madalena Teixeira de Figueiredo *

Ela entrou dentro de casa, trazendo consigo alguns litros de água da chuva que caía teimosamente lá fora, e ameaçava prolongar-se pela noite dentro.

Tremia visivelmente, de braços cruzados e colados ao peito, num misto de frio e exaltação.

- Estás um pinto, Luísa! Anda cá, tens de te aquecer rapidamente antes que te constipes. - disse Diogo, enquanto lhe cobria as costas ensopadas com a manta de lã que estava estendida no sofá. - Vou-te preparar alguma coisa quente. - dirigiu-se para a cozinha, de onde lhe perguntou - preferes café ou chá? Que pergunta a minha, para esta situação um chá é claramente o mais indicado.

Dez minutos depois, voltou segurando um pequeno tabuleiro com uma caneca cheia e um pão de Deus com queijo e manteiga.

- Achei que só tinha Earl Grey, sabes a íntima relação que tenho com a cafeína, mas por sorte encontrei uma saqueta de chá de erva-cidreira de quando a minha mãe veio cá passar uns dias no Inverno. Trouxe-te também qualquer coisa para comeres, estás com ar de quem precisa de um bocadinho de açúcar para ver se arrebitas.

Luísa permanecia no exacto local e na mesma posição em que Diogo a deixara. Ali estava, de aspecto ainda mais frágil do que o costume, com os seus loiros cabelos molhados a espalhar as suas lágrimas pelo chão.

- Oh Luísa, então, senta-te aqui um bocadinho. Vá, eu ajudo.

Equilibrando o tabuleiro com a mão esquerda, ladeou com o seu braço direito a cintura da rapariga, orientando-a no caminho e suavemente pousando o seu leve corpo no sofá.
Algum tempo depois, após umas dentadas forçadas na merenda nocturna, Luísa parecia já mais desperta do seu estado catatónico inicial, visivelmente recuperada dos tremores convulsivos.

- Porque é que ela foi ter à oficina àquelas horas da noite?

- Desculpa? - passado quase duas horas, estas eram as primeiras palavras que saíam da boca de Luísa - Quem estava a fazer o quê a que horas?

- Ela! Porque estava ela na oficina àquelas horas da noite? Eu disse-lhe que íamos juntas buscar o carro, que não havia necessidade de ela ir sozinha. Raios a partam, ela nem o tirava da garagem durante a semana!

Diogo fitava-a de boca ligeiramente entreaberta, à espera de que Luísa finalmente lhe fornecesse alguma informação adicional capaz de o elucidar sobre o que se havia passado.

Luísa, de olhos pregados no banquinho para os pés em couro, continuava a repetir as mesmas palavras incrédulas.

- Luisinha, sabes o quanto te adoro e me preocupo contigo, e mesmo por isso me custa tanto ver-te assim. Por favor, conta-me o que se passou para te deixar assim neste estado!

E do nada, como se de um feitiço se tratasse, decidiu finalmente começar a comportar-se como o seu "eu" de sempre.

A custo, engoliu dois grandes soluços que simultaneamente assolavam o seu estreito peito.

- Ela tinha de comprar aquele vestido, - começou por dizer - e não podia esperar nem mais um minuto, ou não estivéssemos a falar da Vera e do seu caprichoso feitio. Tínhamos combinado almoçar nesse dia e ela liga-me, às dez para o meio-dia, a dizer que tinha cancelado a reserva no restaurante, e que se eu fizesse mesmo muita questão podia ir ter com ela à Avenida, "para dividir uma sandocha ou algo do género." Como se ela comesse pão...

Diogo tossiu educadamente, reconduzindo Luísa de volta ao cerne da história.

- Bem, e eu mais uma vez acedi às suas exigências. Fui buscar duas saladas ao café onde ela costuma almoçar e fui ter com ela à loja.

- E encontraste-a? - inquiriu Diogo.

- Sim, mas cá fora, na rua e aos berros com um pobre coitado qualquer, com o pára-choques do seu cabrio todo amolgado. Estava pior que estragada, piúrsa mesmo, e nem tive coragem de proferir uma palavra que fosse. Limitei-me a ficar ali, ao seu lado, quieta e discreta. Esperei com ela pela polícia, fomos juntas à oficina e até lhe dei boleia de volta para a loja, já passando das oito da noite quando a fui pôr a casa, a ela e a metade da nova colecção da boutique. "Vou arranjar-me para o jantar de logo à noite, mas ainda hoje vou buscar o carro". Maldito mecânico! Mal sabia ele que uma simples frase como "estamos abertos até à meia-noite, passe por cá e pode ser que tenha sorte", para uma cabeça obstinada como a de Vera, é o equivalente a um acordo formal.

- Mas porque precisava ela assim tanto do carro, afinal? Ia de viagem para algum lado? - interrogou-se Diogo, ainda meio perplexo com a complexidade daquele relato.

- Pois! - explodiu Luísa - Ora aí está uma boa pergunta! Viajar? Pffff, a Vera nem daqui a Cascais consegue guiar sem quase capotar. Era como te disse, o carro estava sempre parado, até metia dó.  Mas qual era a necessidade de ter uma bomba descapotável daquelas, se vivia à distância de uma esquina do seu escritório? Além do mais, aquela mulher vivia de boleias, que simplesmente lhe caiam aos pés sem que ela tivesse que se esforçar, até incomodava.

Olhou de repente para Diogo, apressando-se a interpretar o que dissera.

- Não que lhe desejasse mal algum, de todo! Mau feitio à parte, Deus sabe o quanto ela significa para mim. É como uma irmã para mim, ou era...

- E o que aconteceu na garagem? - voltou a interromper Diogo.

- Quando fui ter a casa dela no dia seguinte de manhã, com o seu latte de aveia e canela, pronta para ouvir todos os desabafos do seu encontro. O quão apaixonado ele estava por ela, as promessas que lhe fizera, a  razão fútil para a "tampa" que lhe dera... - parou para dar um gole no seu já frio chá. - Toquei à porta, várias vezes, e nada. Liguei-lhe e fui sempre parar ao atendedor de chamadas, na sua voz grave a dizer-me "que tente mais tarde, que agora estou muito ocupada". Fiquei duas horas à espera, de cafés na mão e dignidade a rastejar pelo chão, à porta do seu prédio.

- E não conseguiste mais falar com ela? - perguntou Diogo.

- Não, foi como se ela se tivesse evaporado misteriosamente. A princípio, pensei que a noite tinha corrido bem, e que tinha passado o final do serão no loft do seu pretendente. Mas só depois reparei em algo demasiado estranho...o carro dela estava do outro lado da rua, ainda com a grande amolgadela sofrida no dia anterior.

- Como assim? - perguntou Diogo, novamente baralhado com a reviravolta dos eventos.

- É exactamente como te estou a dizer! Fui a correr ver se estava lá alguém dentro, nunca fiando, mas nada. Nem um único bilhete, só uma multa e a senha de arranjo da oficina.

- Mas o carro não continuava danificado? - Diogo já começava a juntar as peças outra vez.

- Sim exactamente, por isso mesmo estranhei toda aquela situação! Dei meia volta, peguei no meu carro e fui à oficina pedir explicações. Por sorte, ou não, estava lá o mesmo técnico com o qual havíamos falado na noite anterior.

- E ele reconheceu-te?

- Digamos que não ficou muito feliz por me ver....começou por me rosnar umas antipáticas palavras, às quais me fiz de desentendida, e acabei por perceber que a Vera tinha de facto lá voltado, já de noite, e armado um perfeito escândalo quando lhe disseram que ainda só tinham feito um orçamento do arranjo total. Não se perdeu em pormenores, nem eu os pedi. Limitou-se a dizer que ela arrancou dali com o carro por arranjar, furibunda. "Uma perda de tempo e trabalho", penso que foram as palavras do mecânico.

- E ele não reparou se ela estava acompanhada? Talvez do tal cavalheiro com quem ia jantar?

- Bem, por acaso nem pensei nisso. - comentou Luísa - Estava tão focada em saber os exactos passos que ela seguiu que nem dei particular atenção a esses detalhes.

- Provavelmente não sabia de nada. - tranquilizo-a Diogo - Muito provavelmente ela estava sozinha, ou ele havia referido isso.

- Talvez...

- Talvez? - Diogo não parecia perceber a dúvida na voz de Luísa.

- Quero dizer sim, deves ter razão. Só sei que depois desta pequena excursão matinal, acabei por tirar o resto do dia e compensar depois em horas extraordinárias. Fui para casa, tratei de uma papelada que estava pendente, e ao final do dia decidi aspirar a casa. Foi então que recebi o telefonema.

E calou-se, ficando os dois num longo e grave silêncio.

- Era da polícia. - recomeçou Luísa - Um tal inspector Matias, que me queria com urgência na esquadra. Disse que não me podia contar o que se passava por telefone, apenas que em breve tudo me seria devidamente explicado. E assim foi.

- Mas "assim foi" o quê, Luísa? Por favor, conta-me tudo de uma vez!

- O pior que podia ter acontecido, o cenário que no fundo do meu subconsciente repousava, trancado a sete chaves. Ela estava morta. Ela, a grande Vera, a implacável e estonteante mulher que genuinamente pensava ser invencível. Não acreditei no início, até que vi aquelas fotografias...parecia uma boneca quebrada, abandonada ali qual trapo gasto, de costas contra o sujo alcatrão. Não aguentei ver muito mais tempo aquelas imagens, não sei como alguma vez voltarei a ser a mesma.

- Mas tens a certeza de que essa mulher era a tua amiga, a Vera?

Luísa encarou-o, lançando-lhe um furioso olhar, e disse:

- Eu sei que era ela. Quem és tu para me dizer a mim se sei ou não reconhecer a pessoa a quem dedico horas da minha vida há mais de dez anos? Sabes há quanto tempo perdi a conta a todos os favores, conselhos, histórias em que me envolvi por causa dela? Saberia identificá-la em qualquer parte do mundo, a qualquer altura, até de olhos fechados.

Diogo desviou o olhar para o lado, da mãos no ar, não oferecendo qualquer tipo de retaliação verbal.

- Desculpa...meu Deus, o estado em que eu estou! Não me leves a mal, vim para aqui desabafar sobre os meus problemas que nada têm a ver contigo, como se não tivesses mais nada com que te preocupar, ofereces-me a tua ajuda e ainda assim consigo ser uma perfeita idiota.

Diogo aproximou-se dela, e num protector abraço, confortou-a.

- Nem por um segundo me peças desculpa, - disse - só cumpri o meu dever enquanto amigo. E claro que não te julgo, nem consigo imaginar pelo que deves estar a passar! Perder o nosso melhor amigo, alguém a quem confiamos a nossa própria vida...só te quero ajudar a perceber e ultrapassar esta terrível situação.

Luísa encostou a cara ao seu peito, afogando no seu perfumado pólo as lágrimas que lhe escorriam pelas bochechas quentes.

- Ela não tinha um "guedo". - sussurrou Luísa, num abafado som.

- Ela não tinha um quê? - Diogo repetiu, intrigado.

Ela levantou a cabeça, esfregando desoladamente a cara para afastar os cabelos colados às têmporas.

- Ela não tinha um dedo, mais concretamente o anelar esquerdo. A besta que lhe fez isto aparentemente não ficou suficientemente satisfeita com o acto e teve que levar uma recompensa, um "troféu" como o inspector lhe chamou.

- E o inspector já tem alguma pista sobre o caso? - perguntou Diogo, enquanto lhe afagava ao de leve o cabelo desgrenhado.

- Não faço ideia, nem sequer pensei muito nisso. - respirou fundo - Afinal, de que me serve ter alguém a quem atribuir a culpa, se isso não ma trouxer de volta? Não que não queira fazer justiça! Não descansarei até apanharem o tarado nojento que a roubou cedo demais ao mundo.

- Sim, mas normalmente este modus operandi tão específico, já tão cedo a ser classificado como homicídio e a fazer parte duma investigação...já devem ter decerto pelo menos alguns suspeitos sob mira.

- Não sei, admito que sim. Ou pelo menos assim o espero. Também não pude adiantar muito mais, contei-lhe tudo o que te disse, mas eu própria ainda não acredito que isto aconteceu.

- E não sabias nada sobre o homem com quem ela se ia encontrar? De onde é, o que faz, o seu nome?

- Não, nada. Digamos que não era fácil manter-me a par de todos os envolvimentos amorosos de Vera, se é que eram longos o suficiente para assim os apelidarmos. Os pretendentes eram mais que muitos, e ela não era propriamente fácil de agradar. Além do mais, era muito vaga nos detalhes. Ficava-se pelos elogios e extravagâncias dos encontros, nada de muito concreto ou profundo.

- E agora o que tencionam fazer?

Ela encolheu os ombros.

- Agora está nas mãos da polícia. Da minha parte, tudo farei para ajudar a apanhar o assassino. Até lá, muita coisa tem de ser tratada e organizada, a começar pelo enterro. E por falar nisso, - olhou para o mostrador do seu Tissot, que já marcava o início de outro dia - tenho de ir andando, que amanhã bem cedo tenho de me encontrar com os pais da Vera. Prometi-lhes que tratava de toda a papelada e burocracia. Afinal, já é castigo suficiente serem os pais a enterrar uma filha, quanto mais terem de o organizar.

- Claro que sim, obviamente. Eu acompanho-te à porta.

Levantaram-se os dois, Diogo cedendo a passagem a Luísa e emprestando-lhe o seu anorak.

- Insisto que o leves, - disse - e ficava muito mais descansado se me deixasses levar-te a casa

- Nem pensar, já abusei de ti o suficiente. Já chamei um carro e já nem sequer está a chover, não há necessidade de te estar a incomodar.

- Não incomodas, mas deixo ao teu critério. Se precisares de alguma coisa já sabes onde me podes encontrar, estou à distância de um telefonema.

- Eu sei, meu querido. - abraçou-o, numa forte e sincera demonstração do seu afecto pelo sempre disponível amigo - Mal chegue a casa aviso.

Chegou o motorista, e uns acenos, depois Diogo estava novamente sozinho na sua enorme casa.

Trancou a porta e espreitou pela janela, certificando-se de que ninguém passava na rua àquela hora da madrugada, e subiu cadenciadamente as escadas até ao piso superior, que desembocavam à entrada do seu quarto.

Removendo afectadamente alguns dos cabelos loiros de Luísa presos ao seu pólo, despiu-o e atirou-o para o chão, sentando-se pesadamente na cama em estrado de ferro.

Abriu a gaveta da mesa de cabeceira, e de lá retirou um frasquinho de vidro com um dedo humano embebido em formol.

- Esta foi por pouco.

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